As playlists de sofrência do Brasil não enganam. No primeiro semestre de 2026, as 50 músicas mais ouvidas em streaming transbordam de versos sobre saudade, corações partidos e recaídas amorosas. Do sertanejo de “dor de cotovelo” ao trap melódico e às baladas pop confessionais, a preferência pelo sofrimento acompanhado é cristalina entre os brasileiros.
Segundo Pamela Magalhães, psicóloga terapeuta, esse comportamento não é tão estranho quanto parece. Quando estamos tristes, nem sempre queremos ser tirados da tristeza imediatamente. Antes disso, precisamos nos sentir compreendidos no que vivemos. A música melancólica funciona como um companheiro emocional, dando palavras e significado para sentimentos que ainda não conseguimos nomear. É como se a letra sussurrasse: “eu sei como isso dói”.
Por trás desse hábito está uma necessidade humana básica: representação emocional. Ao ouvir uma canção que traduz exatamente nosso estado, experimentamos validação e pertencimento. Quando alguém diz “essa música foi feita pra mim”, não está sendo literal, mas reconhecendo que algo universal e íntimo foi tocado. Patrícia Vanzella, pesquisadora da UFABC, completa que o que sentimos ao ouvir uma canção triste não é tristeza pura, mas um estado agridoce e complexo que pode ser profundamente prazeroso.
A música abre uma porta segura para a emoção entrar e sair. Por isso muitos choram ao ouvir suas faixas preferidas e depois sentem alívio. O choro não é piora, é liberação. Quando estamos no fundo do poço, a música não necessariamente nos tira de lá, mas se senta ao nosso lado. E para quem sofre, deixar de se sentir sozinho já é o começo de uma saída.
Com informações de g1.globo.com.